Caixa de Memórias‏




Aprendi com você que não devemos mendigar amizade, você dizia que as pessoas que fossem "gente com a nossa gente interior" ficariam no final. Estou aqui sentada em baixo daquela cerejeira lembrando de sua "quase festa de 15 anos", que dia foi aquele hein? Você estava linda, da forma como havíamos planejado desde os nossos oito anos, um vestido amarelo bebê que marcava perfeitamente sua cintura, fina como um véu de noiva, como eu sempre falei, e eu estava lá com você, com minha calça jeans meio social, um salto preto que estava machucando meu pé e uma blusa linda que você havia me dado especialmente para usar nesse dia, estava tudo correndo bem até que em determinado momento aquele menino que não ouso citar o nome entrou, de mãos dadas com outra garota, outra pessoa que não era você. Deus sabe como você apertou minha mão enquanto o rapaz do som ia te falando algumas coisas aleatórias  relacionadas as músicas que tocariam, você gostava dele e ele fez aquilo. Eu sabia como você gostaria de ter saído correndo porta à fora, nós sabíamos. Mas você, elegante e discreta como sempre, foi andando pelo meio do salão com uma postura impecável e os cumprimentou sorrindo, com aqueles dentes perfeitamente alinhados. Quando já se passava elas quatro da manhã e todos pareciam não querer embora você resolveu que era a "nossa hora", pegou o microfone, agradeceu a todos e saiu sorrindo e acenando, como eu gostaria de ter aquele total equilíbrio e controle da situação mas, você deve lembrar que sempre fui a desequilibrada da "nossa relação" né? Os bons modos deixava para você sempre. Você insistiu para que fôssemos embora sozinhas, então nossos pais deixaram. Fomos andando rua a fora, você e o céu choravam naquela madrugada de 8 de agosto. Então você quis pegar um ônibus, com aquele vestido imenso, a maquilhagem borrada e o coração apertado. Eu só lhe seguia. Quando chegamos em casa insisti para que você desabasse ou pelo menos dormisse um pouco, mas você pegou uma caixinha laranja claro em cima do guarda-roupas e tirou de lá dois vestidos simples, os mais lindos que eu já tinha visto na minha vida, fez com que eu colocasse um deles e colocou o outro. Me levou para fora de casa e então começamos a dançar na chuva, você havia parado de chorar e me falou o motivo de suas lágrimas terem secado tão rápido, naquele dia fizemos um juramento, algo como, "empreste suas lágrimas para o céu e então não irá chorar por ninguém que não mereça". E agora o sol está se pondo e minhas lágrimas caem livres por minha face, desculpa por não conseguir cumprir nossa promessa sempre, mas é que você foi para a Capital e meus planos acabaram mudando, as vezes temos que seguir por um caminho "indesejado" para chegar ao lugar em que nosso coração deve ficar. Na primavera vou te visitar e espero que tenha guardado aquele "vestido de lágrimas secas" pois estou afim de emprestar minhas lágrimas para o céu de novo. Um beijo de sua amiga que de tanto chorar está inundada de sentimentos. Vai entender né?

    Jéssica Pançardes

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